MADURO É INCAPAZ DE ENFRENTAR WASHINGTON

Maduro

Pablo Gomes

Venezuelanos poderão pagar um preço muito alto pela incapacidade política do governo de Nicolás Maduro de enfrentar a contra-revolução orquestrada pela direita fascista do país.

Maduro tem uma grande parcela de culpa no que está acontecendo na Venezuela. Um dos motivos da crise política-econômica do país está ligado diretamente ao projeto de conciliação de classes promovida pelo governo bolivariano. Maduro tem comprometido e enfraquecido os ganhos da revolução bolivariana ao manter o capitalismo no país e ao ceder concessões para a burguesia. Sua política de privatizações e concessões para o capital estrangeiro são catastróficas para a classe trabalhadora e abriram caminho para o atual caos.

Maduro não aprendeu que não se faz concessões para a burguesia. Mesmo tendo sido generoso com os burgueses, Maduro e seu governo continuaram sendo sabotados pelas elites financeiras ao ponto de faltar produtos essenciais como comida e medicamentos. Quem tem pago o preço pela incompetência de Nicolas Maduro é principalmente os operários e os camponeses.

A Assembleia Constituinte chamada pelo governo venezuelano tampouco promete tirar o país da crise já que é composta por diversas falhas e remendos. A Constituinte não se compromete, por exemplo, em deixar de pagar a dívida externa que estrangula o país. A Constituinte não se compromete em criar um decreto para congelar imediatamente os preços de todos os produtos. A Constituinte não fala em expropriar os bancos, o capital especulativo e todos os canais de TV e rádio que ainda estão na mão da burguesia. Não fala em reforma agrária, não fala em cancelar as concessões e privatizações promovidas pelo governo Maduro e muito menos fala em confiscar e distribuir para a população todos os alimentos que tem sido enclausurados pela classe capitalista sabotadora. Maduro não fala sequer em um Tribunal Popular para prender e julgar os responsáveis pelo caos político, sobretudo, os integrantes dos movimentos fascistas que já mataram dezenas de pessoas nos últimos meses.

É preciso deixar bem claro que a queda de Maduro para dar espaço a direita a serviço do imperialismo será uma tragédia na vida dos trabalhadores venezuelanos. Mas ao mesmo tempo, é preciso ser crítico ao governo de Maduro, que é em parte responsável pelo caos atual, por justamente não ter se comprometido por inteiro com a classe trabalhadora. O fato de milhões de venezuelanos terem saído de suas casas para votar pela Assembleia Constituinte é a prova de que os trabalhadores do país estão dispostos a defender as mínimas conquistas alcançadas nos últimos 20 anos, mesmo com os constantes ataques e opressão de Maduro contra os trabalhadores.

A saída para a crise do país não está no governo bolivariano e sim nos movimentos revolucionários e na classe trabalhadora do país. Nos 100 anos da Revolução Russa, algumas lições precisam ser tiradas para compreender o papel importante dos trabalhadores na solução da crise do país numa tentativa fascista de contra-revolução.

Em agosto de 1917, a situação na Rússia era parecida com a Venezuela dos dias atuais. Enquanto faltava pão na mesa da grande população, senhores de terras viviam no bem bom de seus latifúndios. O governo provisório russo e os mencheviques, assim como Maduro, não tinham soluções genuínas para a crise que o país enfretava. Enquanto os bolchequives tentavam convencer os trabalhadores de que a guerra não interessava a eles e sim exclusivamente as elites, tanto os mencheviques quanto o governo provisório russo não tinham planos de boicotar as guerras imperialistas. Em agosto do mesmo ano, a tentativa de golpe promovida pelo General Kornilov, que tentou restabelecer a monarquia, criou uma confusão política entre os mencheviques e o governo provisório.

Na época, os bolcheviques, mesmo sendo críticos ao governo provisório e aos mencheviques, tinham consciência de que mais importante do que apenas criticar a incapacidade política dos reformistas, era barrar o fascismo e a tentativa de golpe da extrema-direita. Os bolcheviques deixaram claro para a classe trabalhadora do que se tratava o golpe fascista  através de um programa independente e revolucionário. Foi desta maneira que os bolcheviques conseguiram ganhar o apoio da população, incluindo das forças armadas, derrotar os fascistas e a tentativa de golpe por parte de Kornilov.

Dois meses depois, em outubro de 2017, os bolcheviques, com o apoio da população (trabalhadores, camponeses e forças armadas) realizam a Revolução Russa, o que vem a ser um dos eventos mais importantes e progressistas do Século XX.

As lições de Outubro de 2017, cem anos atrás, são fundamentais nos dias de hoje, principalmente em relação a Venezuela. Movimentos revolucionários precisam entender o que está em jogo na Venezuela é a tentativa de Washington e de seus representantes de controlar todos os bens de produção para si mesmos. Isso precisa ficar claro para a classe trabalhadora venezuelana.

Washington não quer democracia, Washinton quer petróleo e controle do país. Até Washington admite isso  leia aqui

Washington não gosta de democracia porque Washington não quer o povo no poder. O que Washington quer é Wall Street e seus vassalos controlando as riquezas da Venezuela. Se Washington fosse a favor de democracia não seria aliado do Egito, Arábia Saudita, Kwait e Turquia.

Os movimentos revolucionários precisam deixar claro para a classe trabalhadora que a queda de Maduro trará um furacão de pacotes de austeridade contra eles e retirará todos seus direitos garantidos. Basta ver o que está acontecendo no Brasil e na Argentina. Por mais reformistas e incompemtentes que tenham sido, a queda do PT no Brasil e a saída dos Kirchners na Argentina abriram espaço para Washington ditar regras nesses países e retirar todos os mínimos direitos conquistados nos últimos vinte anos. A classe trabalhadora brasileira e argentina começa a pagar o pato criado pela crise da burguesia.

Somente um movimento revolucionário e independente poderá derrotar a tentativa de golpe imposta por Washington e barrar as negociações do governo corrupto e reformista de Nicolas Maduro com as elites.

Muitos leitores do blog me mandaram mensagens dizendo que apoiar Maduro é fundamental neste momento e criticaram meu último artigo sobre a incompetência do governo venezuelano em resolver a crise.  Mas o que tá em jogo não é apenas defender Maduro e sua ingerência e incapacidade de revidar aos ataques de Washington. Muito menos trata-se de defender sua queda para que a direita fascista possa governar para os ricos e para Washington. O que está em jogo é  solucionar a crise venezuelana através da verdadeira democracia, ou seja, pelo poder popular.

E nem Maduro e muito menos Washington tem a saída democrática que os venezuelanos precisam.

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