O PARTIDO NAZISTA FOI DE ESQUERDA?

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Pablo Gomes

Os termos “direita” e “esquerda” tem origem na Revolução Francesa. Foram criados para distinguir literalmente quem sentava à direita e à esquerda a cadeira do presidente. Liberais sentavam ao lado esquerdo enquanto a nobreza, membros do Segundo Estado geralmente sentavam à direita. No Reino Unido, por exemplo, o termo “direita” e “esquerda” só começou a ser usado no fim dos anos 30 nos debates da Guerra Civil Espanhola.

O termo “direita” já  passou por vários estágios históricos distintos e de ideologias diferentes. A “direita” já fez acordos com a aristocracia e com a religião estabelecida; com os intelectuais moderados, apoiou um governo limitado, o nacionalismo,  políticas anti-imigração e racismo implícito,  e mais recentemente, se aliou ao direito neoliberal quando buscou combinar uma economia de mercado e desregulamentação econômica com as tradicionais crenças de direita em patriotismo, elitismo e lei e ordem. Ou seja, o termo “direita” varia dependendo de que sociedade estamos falando, de que época e/ou de que  sistema político estamos discutindo.

Um exemplo prático é o que aconteceu na França. Ideologias nacionalistas originalmente eram consideradas de esquerda. Após o boulangisme, o nacionalismo se tornou uma agenda da direita. É o mesmo que falar sobre o Partido Republicano e o Partido Democrata nos EUA, que antes da Guerra Civil tinham ideologias diferentes das de hoje. Abraham Lincoln era do Partido Republicano, que até então não era conservador e era a favor da abolição da escravidão.

Ou seja, a discussão “direita” e “esquerda” sem uma base prática, histórica e materialista da sociedade é completamente inútil. Não há como discutir o nazismo, por exemplo, sem essa perspectiva. Dizer que o nazismo é de direita ou de esquerda é uma perda de tempo sem que não se discuta as implicações históricas e materialistas do que aconteceu na Alemanha nos anos 30.

O Partido Nazista (ou Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães) era um partido populista e ultra-nacionalista. Foi criado como uma resposta ao fracasso da Alemanha na I Guerra Mundial e prometia levantar a Alemanha no mundo. Numa Alemanha completamente fracassada (moralmente e economicamente) o partido trouxe as massas para seu lado ao usar propagandas socialistas e nacionalsitas para obter apoio da classe trabalhadora. Hitler chegou a dizer que era “anti-capitalista”, mas o que ele se referia era ao “capitalismo do livre mercado” da “internacionalização do comércio”. Não há nenhuma surpresa nessa colocação de Hitler já que o que estava posto era a defesa da Alemanha contra o mercado internacional e a superação economica da Alemanha ao colocar o país como um poder imperialista. Em nenhum momento Hitler ameaçou retirar a propriedade privada da burguesia alemã. Em nenhum momento Hitler prometeu entregar os bens de produção na mão dos trabalhadores.

O discurso de Donald Trump durante sua campanha eleitoral ano passado,  “de trazer empregos novamente para o país” de “proteger o mercado americano e as fronteiras contra imigrantes” são tão nacionalistas quanto as ideias de Hitler nos anos 30. Trump, a favor da regulamentação do mercado tampouco pode ser considerado um “esquerdista”.

Mas a semelhança entre Hitler e Trump não é nenhuma coincidência. Tampouco trata-se de uma simpatia de Donald Trump por Adolf Hitler.  A semelhança entre os dois está no contexto econômico-político. Tal como foi nos anos 30, o capitalismo está em crise novamente. As contradições dos Estados Nações e da globalização criam uma resposta nacionalista da burguesia mundial. É o que estamos vendo agora nos EUA, na Europa e na América Latina.

As contradições do capitalismo e a crise profunda dos anos 30 foram responsáveis pela II Guerra Mundial. Antes da crise sair do controle, o Nazismo não era visto como uma ameaça. A família real britânica, por exemplo, tinha aproximações políticas com Hitler. Capitalistas como Henry Ford e representantes da IBM fizeram acordos com os Nazistas mesmo sabendo das intenções anti-semitas do governo. Da mesma forma, os Nazistas eram vistos pelos stalinistas como potenciais parceiros.

Tudo isso não foi à toa. O Reino Unido não via o Nazismo  como uma ameaça até que os Nazistas colocaram em prática seu projeto imperialista e invadiram a Polônia. A preocupação do Reino Unido não era com os poloneses, mas com o fato da Alemanha se tornar forte o suficiente para controlar o mercado mundial. O Reino Unido viu a invasão dos nazistas à Polônia não como uma ameaça aos direitos humanos, mas como uma ameaça a sua soberania comercial e imperialista.

Por outro lado, a relação dos nazistas com os stalinistas tinha um outro objetivo: esmagar o comunismo. Diferente do que muitos acreditam, os stalinistas não eram marxistas. Assim como Hitler, os stalinistas eram nacionalistas. O fato de Hitler odiar o comunismo (sobretudo o internacionalismo), era vista como uma parceria por Stalin, que também era contra o internacionalismo. No entanto, Hitler invadiu a União Soviética e quebrou o acordo de não agressão entre os dois governos.

Tanto a União Soviética de Stalin, quanto o Partido Nazista e ainda mais o Reino Unido, EUA e demais países europeus tinham um inimigo comum: o comunismo marxista. De todos os teóricos da economia que estudaram o sistema capitalista a fundo, como foi o caso de Adam Smith, somente Karl Marx foi crítico da exploração dos trabalhadores em favor a propriedade privada e da acumulação de riquezas. Marx tinha previsto o que estava acontecendo na economia mundial nos anos 30, inclusive, com a ameaça de um conflito global. A ideologia marxista era inimiga comum de quase todas potências do mundo porque ameaçava o poder das burguesias, sejam elas internacionais ou nacionais.

Nenhum país do mundo tinha os trabalhadores controlando o poder do governo. Somente a Revolução de Outubro de 1917 na Rússia conseguiu tal façanha, no entanto, foi esmagada pelo golpe stalinista. Se o stalinismo era de “esquerda”, se o nazismo era de “esquerda” ou se o Partido Democrata é de “esquerda” não importava muito porque nenhum deles tinham prometido ou promete a abolição da propriedade privada dos bens produção. É disso que se trata objetivamente a economia mundial: se ela é concentrada na  mão de alguns ou se ela é controlada pelos trabalhadores.  Estados liberais, “democráticos”, Estados mínimos, Ditaduras, Monarquias ou qualquer outra forma de governo não muda nada se não tiver o poder econômico controlado pela mãos dos trabalhadores. Inclusive, o poder na mãos dos trabalhadores é o caminho para a abolição do Estado, que no fim não passa de uma ferramenta burguesa, portanto inútil no comunismo. Liberais, por exemplo, ainda não entenderam que o capitalismo precisa do Estado para sobreviver, portanto é inútil querer um estado mínimo num sistema de acumulação de capital, já que quem garante a acumulação é o próprio Estado.

Se Hitler fosse marxista jamais teria entrado em guerra para salvar a burguesia alemã. Pelo contrário, teria proibido os alemãs de entrarem na guerra para salvar o capitalismo. Foi assim que os bolcheviques se comportaram durante a I Guerra Mundial. Se Hitler fosse marxista, jamais teria provocado a carnificina contra judeus, comunistas, homosexuais e imigrantes, porque no marxismo o que importa é a classe social das pessoas e não seu gênero, religião ou etnia. Não há espaço para carnificina no marxismo. Por isso verdadeiros marxistas sem opoem às guerrilhas, por exemplo, por entender que trata-se de uma reação no fim tão reacionária quanto o terrorismo.

O que é preciso deixar claro é que o que está em jogo é a aplicação do marxismo (do anti-capitalismo em termos internacionais) e de uma política anti-guerra e que destrua a propriedade privada dos bens de produção e exproprie bancos, indústrias e terras da burguesia. O ódio de Hitler pelos judeus era sobretudo um ódio econômico. Em seu livro “Mein Kampf” ele deixou claro que a conexão do judaísmo com o comunismo era o pricinpal problema, tal como os mulçumanos e os latinos nos EUA e na Europa dos dias de hoje, que são considerados culpados pela crise econômica interna e pela falta de empregos. Somente uma política marxista poderá exterminar essas contradições dos Estados Nações, etnias e religiões e dar espaço para todos os povos, inclusive com o direito das pessoas morarem onde quiserem.

A Alemanha de hoje começa a se militarizar e a se preocupar com sua crise nacional ao ponto de já fazer objeções a política de Washington. Enquanto isso, Washington ameaça atacar a Coreia do Norte, China, Rússia, Irã e Venezuela. No Reino Unido, EUA, Brasil, França e Argentina, movimentos nacionalistas (muitos deles racistas como em Charlottesville) voltam a assombrar o mundo. A ascenção desses movimentos nacionalistas (que não tem nada de esquerda e são abertamente de direita) tem criado debates intermináveis, muitos deles inúteis, se o Nazismo foi ou não de esquerda.  Mas a resposta é simples. Se “esquerda” é ser simplesmente nacionalista, a resposta é sim. Se “esquerda” é ser internacionalista, marxista e anti-capitalista, a resposta é não. A Coreia do Norte, por exemplo, é ultra-nacionalista e anti-marxista e mesmo assim se diz de “esquerda”. O governo Bolivariano na Venezuela e o Castrismo em Cuba se dizem de “esquerda”, no entanto, tampouco são marxistas e internacionalistas.

Somente um partido revolucionário, internacionalista, marxista e anti-capitalista poderá evitar a III Guerra Mundial. Tal partido só poderá existir com uma classe trabalhadora consciente e independente. O primeiro passo é denunciar os partidos de “esquerda”, tal como o PT, PSOL, Podemos, Syriza e o Partido Democrata nos EUA, que não representam a classe trabalhadora e que não têm compromissos com as bandeiras marxistas e internacionalistas, únicas bandeiras capazes de fazer revolução e barrar a guerra imperialista.

A discussão de que o Partido Nazista era de “esquerda” ou de “direita” é inútil sem entender a posição da maioiria da população diante do sistema capitalista e dos interesses da burguesia e de seus mamulengos que estão no governo. O que importa agora é que a classe trabalhadora se mobilize por um partido independente marxista e internacionalista e tome o poder para ela, restruturando toda a sociedade para atender as necessidades de todos (e que mesmo com líderes) seja proibida a acumulação de riquezas privadas.

E é essa condição histórica que Hitler, Stalin, Churchill e Roosevelt se opuseram. E é essa condição histórica, materialista, econômica que somente importa no comunismo.

Se isso é ser de esquerda, eu sou a favor da esquerda.

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